João Pessoa é uma bela cidade. Saímos de um hotel no centro pra curtir uma pousada perto da praia e mesmo que não tenhamos (mais uma vez) curtido o mar, valeu a pena. Um ambiente mais “caseiro” e intimista perfeito para o que precisávamos.
O primeiro dia em João Pessoa foi de mesa redonda com o Espaço Cubo, Coletivo Mundo, bandas e produtores locais da cena musical. Em um bate papo que durou das 15 às 20hrs, muitas questões foram debatidas sobre a cena, abrafin, circuito, cubo e o coletivo mundo. Sobre a curadoria dos festivais independentes, um músico da MPB local conhecido como Escurinho fez uma provocação pouco embasada que mexeu com os ânimos dos presentes. Ele alegou que os produtores dos festivais independentes são burros por não escalar na sua programação outros estilos além do rock.
Para quem conhece o mínimo dos festivais já sabe que as programações se diversificam bastante e que isso é recorrente da própria demanda da classe musical. Oras, o Brasil ficou reconhecido internacionalmente no âmbito musical através da MPB, lá na década de 60, 70. E desde então, nenhum festival de MPB se sentiu na obrigação de “abrir” seus horizontes para o rock, por exemplo. E os artistas da MPB menos ainda se preocupavam com essa “burrice”. Por isso, o movimento inependente que nasceu essencialmente do rock, surge para preencher tal lacuna. Ou seja, clarmente a colocação do Escurinho é uma inversão do contexto histórico musical. Mas, há males que vem pra bem e quando não vem, temos que tirar um lado bom da história. A partir dessa provocação, a galera toda ali reunida em prol de uma maior organização e conexão em rede com a cena independente brasileira, saiu ainda mais fortalecida com a visão de que haverão sempre àqueles que vão preferir destruir do que construir e por isso mesmo, uma organização forte e comprometida é extremamente necessária para o desenvolvimento de qualquer cena local. Eis a pré disposição do Coletivo Mundo.
Adentrando nos meandros da organização do Coletivo mundo, a galera apresentou uma proposta que a princípio, deve nortear a organização. Contendo um estúdio de ensaio, o Festival Mundo, a casa de shows Espaço Mundo e os núcleos de comunicação e de tecnologias, surgiu uma análise maior em cima da divisão do administrativo financeiro alocado em cada um dos setores produtivos ao invés de um núcleo próprio central. Essa divisão acarreta inclusive, numa separação financeira das atividades.
Através de muito debate, Pablo levantou uma série de problemáticas que poderiam surgir a partir dessa configuração para uma reflexão do coletivo. O que também me fez refletir: Normalmente as pessoas tem uma visão do administrativo financeiro como um cargo burocrático e de “caixa registradora”. E mesmo que essa leitura possa fazer algum sentido em muitos casos no mercado convencional, para um coletivo não cabe. Um administrativo financeiro deve em primeiro lugar, ter um papel unificador das células produtivas coletando força de trabalho e o que gera dele em números e proposições. Em segundo lugar, entender o conceito de cada atividade planejada afim de decupar e destrinchar cada ítem necessário para traçar a viabilidade de sua execução, garantindo essa execução com todas as ferramentas possíveis. Ou seja, tem o papel fundamental de fazer com que um planejamento saia do papel e se torne realidade. Para isso, um bom trânsito entre as células produtivas e de planejamento, além do estudo constante de alternativas são fundamentais pra gerar a auto sustentabilidade. Foi nessa perspectiva que surgiu o Cubo Card como a principal alternativa de viabilidade dos projetos do Cubo, reduzindo os custos em real que sempre foram difíceis de se conseguir no mercado cultural. O Cubo card trouxe esse equilíbrio se desdobrando em alternativas para outras inúmeras questões da entidade. Sempre na perspectiva de garantir a realidade dos sonhos (em comum) planejados.
Operacionalmente, setores produtivos com funcionamento fechado seguindo a linha receita – custos = lucro, nada mais são que empresas privadas do mercado tradicional. E convenhamos, difícil de ser aplicado na cultura independente que mantém a duras penas um mercado da música autoral. Pensem comigo, se eu tenho uma Casa de shows que existe para garantir a circulação de bandas independentes, o intercâmbio de cenas locais e etc, em muitos momentos, devo priorizar que isso aconteça ainda que não seja “rentável”, a grosso modo, ainda que não pague as contas. Por isso mesmo preciso ter um outro setor produtivo como um estúdio, funcionando no mesmo conceito que além de qualificar e reunir as bandas independentes, pode gerar um lucro devido aos custos de manutenção serem menores que o da Casa de shows. Se eu não tenho a flexibilidade de usar os recursos do estúdio na casa, gerando um equilíbrio nessa relação, acabo engessando o propósito comum do coletivo que é botar todos os projetos para funcionar. Além disso, se torna uma relação pautada no dinheiro, ao invés do trabalho, uma vez que se no estúdio é “mais fácil” produzir lucro do que na Casa, subentende-se que a galera do estúdio esteja trabalhando mais do que a galera da Casa, o que não é uma fórmula coerente com a matemática coletiva. Na prática, o estúdio garante a sobrevivência dos trabalhadores dele, mas os da Casa ficam comprometidos, ainda que todos trabalhem o mesmo tanto. Certamente já temos motivos de sobra pra gerar conflito interno.
É por isso que simbolicamente e praticamente, penso que um administrativo financeiro central que aglutina os setores produtivos e os conectam com o planejamento do coletivo garante uma organização compartilhada e não engessada para cobrir as lacunas demandadas dos setores sem parar a produção das atividades, ao contrário disso, possibilitando a ampliação das ações sem gerar conflitos desnecessários e privatistas. Afinal, estamos falando de um coletivo. É claro que com o conceito bem amarrado, a questão dessa célula ser separada é uma mera questão de metodologia que a meu ver, exigiria um nível de organização muito maior do que o de quem está no início da sua história enquanto um coletivo. Afinal, é separar para 5 o trabalho de 1, num primeiro momento, ao invés de estimular que 1 faça o trabalho de 5. Essa matemática também deve se fazer valer num coletivo que afinal, combate a idéia do funcionalismo e exalta a idéia do protgonismo.
Reflexões à parte, a discussão rendeu um norte importante para o segundo dia: A união dos coletivos representantes do Nordeste como pontos Fora do Eixo. No caso, reuniram-se o Lumo (Recife), o Mundo (João Pessoa), o Noize (Natal) e a Rede Ceará de Música (Fortaleza) junto ao Cubo (cuiabá e CFE) para estreitar a relação entre os coletivos, estabelecer a continuidade dessa conexão bem como o desenvolvimento das atividades dentro do Circuito, enquanto pontos fora do eixo. 
Após a reunião, tocamos em frente (de volta) para Recife com a Laura e o Gabriel do Coletivo Lumo para iniciar o trabalho em parceria com a Fundarpe: o de mapear e apresentar propostas de desenvolvimento cultural nos bairros Alto Zé do Pinho e Santo Amaro. Chegamos às 23hs em Recife, comemos e dormimos.
Hoje fomos com o Rafa (Fundarpe) visitar o Alto Zé do Pinho e falar com a principal liderança de lá: o Canibal (da banda Devotos). Mari não pôde ir porque está doente há dois dias e optou por descansar pra se recuperar (Culpa de um certo hotel. rs). Mas tivemos um bate papo que foi muito interessante para entender o princípio que norteia o desenvolvimento ali no bairro. Filmei tudo. Após o bate papo, marcamos uma reunião já para amanhã com o Coletivo Lumo também presente para que acompanhem o que for trabalhado dentro do bairro. Amanhã será o dia para coletarmos as principais informações entre comércio, população e projetos desenvolvidos ali até então, além das maiores dificuldades e facilidades ali presentes. Com essas informações, dar início à nossa proposta para a Fundarpe.
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** Comecei a ler um livro, volume 1, sobre a ECOSOL (Economia Solidária), que reúne vários artigos sobre o tema que vão desde o princípio da Economia Solidária ao desenvolvimento da mesma no Brasil. Pelo pouco lido já vi que há quem considere que a economia solidária se enquadra no socialismo utópico conceituado por Marx. Vou falando mais por aqui depois.
** Nessa tour pelo Nordeste, quase não fomos à praia. Ainda bem que no nordeste não tem só ela de interessante. rs
** Estamos hospedados no mesmo hotel que ficamos quando estávamos aplicando a oficina aqui em Recife. Marolinda Cult Hotel. E tem gente que diz que ele fica em Boa Viagem, outros que fica em Pina…se alguém tiver certeza de onde fica, me avise.
** Vamos assistir ao show do Motorhead no Abril pro Rock. Mas não o do Vanguart. Queria mesmo era assistir Macaco Bong.
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Beijos e até amanhã.